De tanto ouvir o que não queria, tornou-se surdo: por opção.
insanidades
Contos, minicontos, poesias, pensamentos, comentários e outras obscenidades!?!?
Aqui deposito minhas sensações, escritas mal escritas, incongruências, reminiscências de fatos que não existiram, embalado pelo magnetismo das teclas que atraem meus dedos e vão desenhando palavras, frases, textos, quem sabe... E se algum dia escrever algo que valha a pena ser lido, dedico a todos os meus professores, desde o iniciar da minha educação formal, mas especialmente aqueles que fizeram a diferença.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Surdez
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Miniconto
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sábado, 26 de maio de 2012
Cinzas
Acordou naquele dia com um acesso de espirros horrível. Cada vez que espirrava, lhe saía da boca uma quantidade enorme de uma espécie de cinza esbranquiçada. Na rua, espirrou próximo de um desses aparelhos que medem a qualidade do ar, e um alarme soou. Desde então, foi terminantemente proibido de sair às ruas para não piorar o ar já gravemente comprometido.
Ele argumentou que precisava trabalhar para sobreviver. Então, desenvolveram especialmente para ele uma espécie de chaminé de cinco metros de altura, que carregava nas costas, presa como uma mochila, e que terminava num tubo curvo próximo da boca, para ali espirrar quando necessitava. No trabalho, colocaram-no próximo de uma janela com a chaminé para a rua. Mas os colegas se revoltaram, porque queriam ligar o ar condicionado e não o podiam fazer com a janela aberta. O caso se tornou uma polêmica na empresa: de um lado, a equipe dos contra, e do outro, em muito menor número, o time dos favoráveis à sua permanência. Como resultado, foi demitido por piorar o clima no ambiente de trabalho, algo que a empresa vinha tentando melhorar já há algum tempo.
Ninguém o queria. Tinham receio que contaminasse outras pessoas e que os espirros poluidores se tornassem uma epidemia. Virou um problema social, e depois de saúde pública. Mandaram-no para um renomado centro de pesquisas, e os cientistas descobriram que a cinza que dele saía, em contato com a água, se tornava um material moldável, e de secagem muito rápida, mas que depois de seco era mais resistente que o grafeno, e mais leve que a fumaça sólida.
Com este material, começaram a produzir inúmeras peças, instrumentos e ferramentas de reconhecidas qualidade e utilidade para a vida moderna. O produto derivado da cinza produzida por aquele cidadão era tão valioso que se tornou muitas vezes mais caro que o aerogel. O grande receio era que, de uma hora para outra, ele parasse de espirrar e expelir tão valiosa materia-prima.
Havia uma equipe enorme de cientistas, médicos, nutricionistas e psicólogos, constantemente monitorando ele para que mantivesse uma boa saúde e conseguisse mais espirros por dia, desnecessário dizer que, obviamente, para uma maior produção de cinza. Ele se sentia uma cobaia de laboratório. Sua vida estava terminada. Passava o dia sendo medido, pesado, analisado; preso a máquinas, fios, cabos, eletrodos... Mas por mais que pesquisassem, os estudiosos não descobriam a menor pista de onde nem como poderia se formar aquela cinza dentro de seu organismo, muito menos como reproduzí-la em laboratório.
Chegou a época de campanha eleitoral, e o mandatário do país, candidato à reeleição, julgou que prestar uma homenagem a tão notável cidadão seria uma boa jogada de marketing político. Colocaram um enorme monolito de mármore bem no centro da mais bonita praça da capital, por onde passavam diariamente milhares de pessoas, e sobre a qual seria descerrada uma placa de bronze em sua homenagem.
No dia da solenidade, havia autoridades do país inteiro e do exterior também. Colocaram-no sobre o monolito para ele próprio puxar o cordão que soltava o veludo azul-marinho que cobria a placa. Ele se posicionou com a mão no cordão, mas antes disso, o bom político resolveu dizer algumas palavras... e o discurso foi se estendendo. Enquanto isso, ele começou a ficar com uma vontade enorme de espirrar, mas sabia que não deveria fazê-lo ali, pois os cientistas haviam desenvolvido uma espécie de "papagaio" especialmente desenhado para lhe colher o material cinzento dos espirros. Dado o valor daquele produto, nada poderia ser desperdiçado.
O nobre político já estava falando por duas horas sem parar, e ele ali, segurando o espirro. Nesse momento, um assessor assoprou no ouvido do político, sugerindo-lhe que abreviasse o discurso porque o pessoal do clima avisara que uma enorme chuva se preparava para cair. O céu escurecera de repente. O tribuno encerrou a sua fala anunciando que o homenageado iria então descerrar a placa. Mas já era tarde demais, o homem não aguentou, e para não espirrar cinzas sobre as pessoas que se aglomeravam na praça, espirrou para cima, e aquela enorme e espessa nuvem cinzenta pairou por alguns instantes sobre a sua cabeça, para depois começar a cair sobre si próprio, momento em que a maior faísca já vista rasgou os céus, e um enorme trovão foi ouvido, anunciando a chuva que começou imediatamente a se precipitar torrencialmente sobre todos.
Depois de alguns anos passados, milhares de turistas, do mundo inteiro, ainda vão visitar aquela praça, para verem a inusitada, mais perfeita e realística estátua do mundo, com um homem olhando para a cidade, tentando dar um passo a frente, e fazendo um estranho gesto com o braço direito apontando para cima, a mão fechada virada para si, apenas com o dedo médio - o pai-de-todos - esticado para o alto.
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Conto
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quinta-feira, 24 de maio de 2012
Diligência
Oliver passou anos de sua vida somente praticando o bem. Um dia, descuidou-se e praticou uma maldadezinha. Sentiu-se tão bem que de vez em quando repete a dose, e depois disso, até vai na igreja.
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terça-feira, 22 de maio de 2012
Foco
Entrou na loja procurando por uma meia arrastão. Não tinha, mas acabou comprando um vestido longo, uma calça jeans, uma blusa de seda, uma bolsa, um sapato de salto alto prateado, um colar de pérolas, e três conjuntos de calcinha e soutien.
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domingo, 20 de maio de 2012
Deveres
Deixava a vila ainda cedo, apanhava dois ônibus, e finalmente o metrô até o centro da cidade. Passava o dia vendendo prazeres. Depois de todo o caminho de volta, chegava quando o sol já havia ido. Liberava a babá. Fazia o jantar. Banhava as crianças, alimentava, e depois ainda os auxiliava nos temas de casa. Para dormir, contava-lhes estórias de castelos e princesas. Enquanto a vila dormia, ia faxinar a casa, lavar, passar, e preparar tudo para o dia seguinte. Repousava de três a quatro horas por noite. Bastante para quem tinha pesadêlos. Homem não lhe fazia falta. Nas missas dominicais, cantava no coral da igreja.
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quinta-feira, 17 de maio de 2012
Conexão
O telefone celular era o objeto de adoração de Cecília. Passava cada vez mais tempo falando ao telefone: com a mãe, com a tia, com as amigas, com o locutor da rádio... e quanto mais falava, mais bônus ganhava... e mais falava. Tornou-se cliente VIP da operadora. Passava horas, dias, meses falando. Num dia daqueles, veio uma tempestade, e uma descarga elétrica destruiu a antena da operadora, e todos daquela região ficaram sem sinal. Foi demais para ela, teve um problema grave no chip, o display vazou todo, e morreu.
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| CellPhone Créditos da Imagem: Marc Noon http://commons.wikimedia.org/wiki/File:CellPhone.png |
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terça-feira, 15 de maio de 2012
180 Graus
Inverno frio na campanha, Tenório ficou até tarde no bar. Bebeu algumas. Quando saiu, já era bastante tarde. Foi-se pensando em chegar rápido em casa porque no dia seguinte acordava cedo e saía quebrando geada para ir trabalhar. Levantou a gola do casaco para abrigar o pescoço do minuano que vinha encanado pelas ruas da pequena cidade, soprando diretamente no rosto dele. Havia caminhado uns vinte minutos, mais dez, estaria em casa. Tentou acender um cigarro mas o vento não permitia que a chama do isqueiro parasse de pé. Virou-se de costas para o vento, com as mãos em concha, e conseguiu finalmente acender o pito. Colocou as mãos nos bolsos e se pôs a caminhar novamente, com o vento castigando-lhe a nuca. Quando percebeu, estava na frente do bar outra vez.
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História de Trabalho
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